Mas quando um filósofo critica um tirano,
quando um cidadão critica a maioria, quando um aluno critica o professor,
então utilizam a parrésia. Na parrésia, dizer a verdade é um dever."
Plutarco, que viveu no século 1, escreveu um livro intitulado Como
distinguir um adulador de um amigo. O verdadeiro amigo é parrésico, fala a
verdade, ainda que incomode ou doa. Pois a relação que temos conosco, a de
amor-próprio, cria em nossa mente a permanente ilusão acerca de quem
realmente somos.
"Sendo cada um de nós o principal e maior adulador de si mesmo - diz
Plutarco - devemos admitir sem dificuldade alguém de fora como
testemunho."
Alguém que nos critique e nos faça reconhecer os erros e defeitos. Só um
amigo parrésico é capaz de nos livrar da ilusão e fazer com que nos
olhemos no espelho da alma.
Como saber que o amigo é parrésico? Plutarco diz que há dois modos:
primeiro, conformidade entre o que ele fala e vive, como Sócrates.
Segundo,a firmeza de convicções.
"Se se alegra sempre com as mesmas coisas e as
preza - diz Plutarco - e ordena sua própria vida segundo um único modelo.
O adulador, por não ter caráter,
não vive uma vida escolhida por ele mesmo,
e sim pelos outros, e modela-se e adapta-se para o outro;
não é simples nem coerente, mas ambíguo e contraditório,
por fluir e mudar de forma como a água que,
vertida de um recipiente a outro, adequa-se à vasilha que a
recebe."
Foucault chama a atenção ao fato de Plutarco sublinhar que somos incapazes
de admitir que não sabemos nada e nem sabemos quem somos.
Galeno, famoso médico do século 2, observa que vemos os defeitos dos
outros, mas permanecemos cegos quando se trata dos nossos. Platão sublinha
que o amante é cego frente ao objeto de seu amor. "Se, portanto, cada um
de nós se ama acima de todas as coisas
- diz Galeno - deve estar cego no que
concerne a si mesmo. ( ... ) Quando um homem não saúda pelo nome um
poderoso ou rico, quando não o freqüenta nem senta à mesa com ele, quando
vive uma vida disciplinada, é de se esperar que este homem diga a
verdade."
Galeno sugere que tomemos este homem por amigo e lhe peçamos que diga tudo
que observa em nós. Ele haverá de nos salvar, tanto quanto o médico que
cura a enfermidade de nosso corpo.
Esses sábios e antigos conselhos servem em todas as circunstâncias de
nossas vidas. Quem dera que aqueles que ocupam uma função de poder - do
político ao síndico do prédio, do gerente à guardiã da capela -
estimulassem aqueles com quem e para quem trabalham a manifestar suas
críticas e sugestões. No entanto, nossa vaidade torna os nossos ouvidos
moucos. E qualquer crítica é recebida como punhalada em nosso ego.
Sobretudo aqueles que, entre nós, têm auto-estima em baixa e necessitam,
como o peixe da água, viver cercados de bajuladores.
Quem dera tivéssemos a ousada humildade de Jesus que, em Cesaréia de
Filipe, fez duas perguntas a seus discípulos: "O que o povo diz a meu
respeito? E vocês, o que dizem de mim?" (Mateus 16, 13-20).
Em geral, preferimos nos iludir convencidos de que os subalternos pensam a
nosso respeito o que gostaríamos que pensassem. E sem dar-lhes chance de
nos corrigir, vamos arrastando vida afora os nossos defeitos, que
prejudicam terceiros e nos colocam no pelourinho do ridículo.