sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A OUSADIA DA FRANQUEZA

Por Frei Betto*

"Em geral, preferimos nos iludir convencidos de que os subalternos

 pensam a nosso respeito

 o que gostaríamos que pensassem". Michel Foucault, em

conferências na Universidade de Berkely, em 1983, revisitou o tema da

parrésia, palavra grega que aparece pela primeira vez na obra de
Eurípides,


há sete séculos, e significa franqueza ou, etimologicamente, "dizer tudo".
O parrésico, o que fala a verdade, merece credibilidade por sua ética e

coragem. Pois não se trata de apenas manifestar o que pensa, mas fazê-lo

com risco de vida, ou seja, confrontando o poder. E o poderoso pode
"A parrésia é uma forma de crítica - afirma Foucault - tanto ao outro

puni-lo por tamanho atrevimento.
quanto a si mesmo, mas sempre numa situação em que o crítico se encontra
numa posição de inferioridade em relação ao interlocutor. O parrésico é
sempre menos poderoso do que aquele a quem dirige a palavra. A parrésia

vem'de baixo' e se dirige a quem está 'em cima'.


Por isso, um antigo grego não diria que um professor ou pai que critica
uma  criança faz uso da parrésia.

Mas  quando um filósofo critica um tirano,

quando um cidadão critica a maioria, quando um aluno critica o professor,
então utilizam a parrésia. Na parrésia, dizer a verdade é um dever."

Plutarco, que viveu no século 1, escreveu um livro intitulado Como

distinguir um adulador de um amigo. O verdadeiro amigo é parrésico, fala a


verdade, ainda que incomode ou doa. Pois a relação que temos conosco, a de

amor-próprio, cria em nossa mente a permanente ilusão acerca de quem

realmente somos.

"Sendo cada um de nós o principal e maior adulador de si mesmo - diz

Plutarco - devemos admitir sem dificuldade alguém de fora como

testemunho."


Alguém que nos critique e nos faça reconhecer os erros e defeitos. Só um

amigo parrésico é capaz de nos livrar da ilusão e fazer com que nos

olhemos no espelho da alma.


Como saber que o amigo é parrésico? Plutarco diz que há dois modos:

primeiro, conformidade entre o que ele fala e vive, como Sócrates.
Segundo,a firmeza de convicções.

 "Se se alegra sempre com as mesmas coisas e as

preza - diz Plutarco - e ordena sua própria vida segundo um único modelo.
O  adulador, por não ter caráter,

 não vive uma vida escolhida por ele mesmo,
e sim pelos outros, e modela-se e adapta-se para o outro;
 
não é simples nem coerente, mas ambíguo e contraditório,
 
por fluir e mudar de forma como a água que,
 
vertida de um recipiente a outro, adequa-se à vasilha que a

recebe."

Foucault chama a atenção ao fato de Plutarco sublinhar que somos incapazes
de admitir que não sabemos nada e nem sabemos quem somos.

Galeno, famoso médico do século 2, observa que vemos os defeitos dos
outros, mas permanecemos cegos quando se trata dos nossos. Platão sublinha
que o amante é cego frente ao objeto de seu amor. "Se, portanto, cada um
de  nós se ama acima de todas as coisas
- diz Galeno - deve estar cego no que
concerne a si mesmo. ( ... ) Quando um homem não saúda pelo nome um
poderoso ou rico, quando não o freqüenta nem senta à mesa com ele, quando
vive uma vida disciplinada, é de se esperar que este homem diga a
verdade."


Galeno sugere que tomemos este homem por amigo e lhe peçamos que diga tudo
que observa em nós. Ele haverá de nos salvar, tanto quanto o médico que

cura a enfermidade de nosso corpo.

Esses sábios e antigos conselhos servem em todas as circunstâncias de
nossas vidas. Quem dera que aqueles que ocupam uma função de poder - do
político ao síndico do prédio, do gerente à guardiã da capela -
estimulassem aqueles com quem e para quem trabalham a manifestar suas
críticas e sugestões. No entanto, nossa vaidade torna os nossos ouvidos
moucos. E qualquer crítica é recebida como punhalada em nosso ego.
Sobretudo aqueles que, entre nós, têm auto-estima em baixa e necessitam,
como o peixe da água, viver cercados de bajuladores.

Quem dera tivéssemos a ousada humildade de Jesus que, em Cesaréia de
Filipe, fez duas perguntas a seus discípulos: "O que o povo diz a meu
respeito? E vocês, o que dizem de mim?" (Mateus 16, 13-20).

Em geral, preferimos nos iludir convencidos de que os subalternos pensam a
nosso respeito o que gostaríamos que pensassem. E sem dar-lhes chance de
nos corrigir, vamos arrastando vida afora os nossos defeitos, que
prejudicam terceiros e nos colocam no pelourinho do ridículo.

Um comentário:

  1. OLÁ

    ADOREI ESTE TEXTO DE FREI BETO, QUE É UM EXEMPLO

    PELO QUE ENTENDI, SOU VERDADEIRA, E GOSTO DE QUEM É ETICO!ENTAO SOU PARRÉSICA!

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